Somos reféns do nosso passado?

* Por: Marcela Pimenta Pavan

Quando somos crianças não temos autonomia sobre as nossas vidas. Na infância realmente somos reféns do contexto em que nascemos, dependemos dos outros para nos alimentarmos, aprendermos e crescermos.

O ideal é que tenhamos uma situação adequada para esse desenvolvimento, que sejamos amados e respeitados, que tenhamos pais que nos oriente, nos eduque e que possamos amadurecer de uma forma saudável para fazermos bom uso da autonomia que teremos sobre a nossa vida, na fase adulta.

Porém, sabemos que esse contexto ideal nem sempre acontece. Muitas são as crianças expostas, desde muito cedo, à situações de abandono, violência e conflitos emocionais e isso, sem dúvida, tem um impacto na vida delas.

Mas, que impacto é esse?

As experiências vividas na infância podem ter sido dolorosas, mas não significam necessariamente que no futuro serão adultos com sérios problemas. Filhos que tiveram pais ausentes, violentos ou problemáticos não reproduzirão, obrigatoriamente, o mesmo comportamento na fase adulta. O passado pode ajudar a explicar, mas não determina o futuro.

Várias são as histórias de superação. Um estudo feito por Felsman e Vaillant mostrou o resultado de 75 homens que cresceram em situações bastante adversas. Muitos desses homens, embora marcados pela experiência vivida, exibiam atitudes corajosas de controle e competência, assumindo uma postura ativa na construção de suas vidas. É possível também encontrar vários exemplos no cotidiano, pessoas que transformaram uma experiência ruim em algo proveitoso como mães que criaram ONGs após a perda do seu filho ou empresários de sucesso que vieram de famílias muito pobres.

Como a dificuldade pode se transformar em algo positivo?

Algumas linhas da psicologia como a Abordagem Sistêmica e a Psicologia Positiva trabalham com o conceito de Resiliência que pode ser definida como a capacidade de renascer da adversidade, fortalecido e com mais recursos internos.

Os estudos sobre o tema mostram que as dificuldades  vividas além de não serem as responsáveis por determinar o sucesso ou o fracasso de alguém podem auxiliar o sujeito a se auto reparar e crescer. Ou seja, há uma potencialidade na adversidade servindo também como um propulsor ao desenvolvimento.

Isso quer dizer que pessoas que passaram por situações difíceis podem, com a experiência, querer uma realidade diferente para si e se esforçar em uma nova direção. Podem também estar mais preparadas para futuros problemas tendo ao alcance um repertório com diferentes formas de enfrentamento das dificuldades ou ainda encontrarem uma carreira de que se orgulhem advinda de uma personalidade construída mediante a uma realidade precária. Para exemplificar, imaginem a situação em que uma filha mais velha precisou cuidar das filhas mais novas para que a mãe pudesse trabalhar fora e sustentar a família. Por conta dessa habilidade de cuidar, desenvolvida por uma necessidade, essa filha cresceu se percebendo assim no mundo e escolheu uma profissão onde o cuidado fosse imprescindível como enfermagem, medicina ou psicologia. Essa habilidade passou a ter um significado importante e foi propulsor para uma vida diferente.

O passado sempre tem pelo menos dois lados: o que te marca com as experiências dolorosas e com as experiências positivas, a questão é como entender o que passou e o que se pode fazer a partir disso.

Todos nós enfrentamos algum tipo de dificuldade na vida, mas é sempre possível reescrever a nossa história e construir um dia a dia mais pleno e feliz.

Esse tema apresenta diversos aspectos que podem ser abordados. Se você ficou com alguma dúvida ou curiosidade sobre o assunto comente ou mande um e-mail paraacaminhodamudanca@gmail.com

* Marcela Pimenta Pavan, psicóloga clínica, CRP 05/41841. E-mail: marcelapimentapavan@gmail.com
 
 
Referência Bibliográfica: 
Walsh, F. (2005). Fortalecendo a resiliência familiar. São Paulo: Editora Roca.
 
Written by Marcela Pimenta Pavan all rights reserved.
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7 respostas para Somos reféns do nosso passado?

  1. eliane disse:

    Realmente. Eu cresci em uma família onde não existia o contato físico, mas quando tive meus filhos(3) eu os abracei e beijei muito. Mesmo já adultos agora (eles têm 30, 28 e 26) ainda deitam em meu colo para que eu lhes afague. Show!

  2. Que bom Eliane! Fazer a sua história diferente estimulou e permitiu maiores demonstrações de carinhos na sua família. Quantas possibilidades existem de construir novas histórias.

    Abraço,
    Marcela

  3. gal disse:

    Adorei o texto!!

  4. Márcia Russo disse:

    Adorei o texto. Não dá para mudar o passado, mas, pelo menos, transformá-lo e presentificá-lo no presente frutífero!!!!

    Beijos,

    Márcia

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